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O que Machado de Assis e Britney Spears tem em comum?

Guia definitivo sobre literatura.


Duas mulheres lendo

Muitas das discussões que temos sobre o que é ou não literatura, o que é uma alta e uma baixa literatura, o que é bom e o que é ruim, se dão pela necessidade da literatura, como ciência, precisar entender e definir sempre o seu objeto de estudo. Pense comigo, a geografia também é uma ciência humana, não precisa se definir o tempo todo, as pessoas sabem exatamente o que a geografia conceitua para a humanidade.


Quando emitimos uma opinião leviana sobre o que, particularmente, achamos que é literatura ou não, excluindo um livro ou outro, por não nos satisfazer pessoalmente, estamos automaticamente fazendo um desserviço para a literatura como ciência.


A teoria da literatura, ciência que estuda a literatura, serve para se dedicar a encontrar técnicas para analisar e qualificar as histórias que tanto amamos. Criada no século XIX, ela é uma forma de entender o que se escreve no tempo que se escreve. Ou seja, precisa ser reflexiva, flexível e sem preconceitos. Você já viu alguém da academia ou fora dela avaliando a literatura contemporânea levando em conta esses três requisitos? Pois é.


“Você já se fez essa pergunta, caro leitor? Eu também nunca tinha me feito até muito pouco tempo atrás. Chegar a conclusão que, de certa forma, ainda estamos no século XIX é muito louco! Em teoria, a arte como um todo deveria nos fazer pensar fora da caixa.”

As duas coisas que precisamos entender sobre literatura é que há anos os teóricos vêm tentando colocar uma pedra sobre o assunto, definindo de uma vez por todas o que é literatura. Cada conceito novo acaba desbancando o antigo. Em casos como o de Umberto Eco que escreveu que pode-se dizer que a literatura não serve para nada, mesmo tendo o poder de representar historicamente costumes e linguagens. A segunda coisa é que a literatura, assim como toda a arte, é um entretenimento. Seu livro clássico daquele espanhol que você catou no sebo e que ninguém conhece está mais perto do Big Brother Brasil do que de uma cirurgia na vesícula. É uma verdade um pouco chocante, mas é verdade.


Embora a literatura possa revelar as características de um povo e seu status, isso também acontece na música e nas artes visuais. Machado de Assis e Britney Spears andam mesmo lado a lado e não adianta você espernear.


“Lu está afiada e tenho certeza que está te causando um choque de arrepiar, caro leitor. Confesso que para mim também foi um choque chegar a essa conclusão. E olha que já senti vergonha a um tempo atrás de gostar de Cassandra Clare e José Saramago. Tenho certeza que muitos leitores se identificam com essa situação em algum momento.”

O lance da alta literatura ocorre de velhas escolas literárias elitistas que consideravam um bom texto apenas aqueles que tinham palavras bonitas, rimas perfeitas ou frases corretas. O Morro dos Ventos Uivantes foi escorraçado pela crítica porque tinha muitos palavrões. Agora imagine se continuássemos com essa mentalidade. Entendem meu ponto?


“Imperdoável e agora tocou diretamente no meu coração, pois aqui nesse espaço santificado pregamos a palavra de Emily Brontë com fervor.”

A literatura precisa ser reflexiva e entender o contexto de cada gênero, onde estamos em cada época da indústria e assim por diante.


A literatura precisa ser flexível e buscar agregar ao invés de segregar. Existem muitas pessoas no mercado trabalhando como revisores, então se o único requisito para qualificar um bom livro for a escolha de palavras bonitas e frases bem formadas não precisamos de escritores e sim de revisores.


A literatura precisa ser sem preconceito porque é uma ciência humana. Você não pode reclamar que as pessoas não lêem se ajuda a fazer com que a literatura continue sendo elitista. O leitor não é um ser mágico que precisa ser adorado só porque escolheu a dádiva da leitura como hobbie.


Precisamos parar de desmerecer uns trabalhos só para demonstrar que outros são melhores. Não é uma questão de pódio. É uma questão de objeto de estudo. É uma questão de descobrir quem somos nós hoje a partir da literatura que consumimos. É uma questão de descobrir hoje o que é literatura.


“Essa sempre foi uma grande armadilha do sistema. Exaltar certas culturas, povos, objetos, pessoas para diminuir outras. Para impor um ponto de vista. Como já diz Chimamanda - O perigo da história única.”

Nesse guia definitivo sobre o que é literatura eu digo que ela é um entretenimento. Uma fuga do cenário de crise capitalista que vivemos. E é nesse entretenimento que acendemos a fagulha de raiva que a compreensão do mundo nos oferece.





 










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